Desde a concepção vim engordando, mas só percebi lá pelo 3° mês. Antes disso eu até desconfiava. Foi quando, lá para o 84° dia, comecei a inchar, inchar... achei até que não ia bem da saúde, dava uma ansiedade, tudo isso. O fato de continuar inchando levou-me à certeza: havia algo dentro de mim. E era tão vivo, quando manifestado, que me bastou o toque das mãos para que sentisse os primeiros sinais - tum___tum-tum___tum-tum___tum. Viu? Não precisei tomar 500 copos d´água, nem sentar em sala de espera, respondendo a perguntas indiscretas de ninguém. Eu sabia. Sabia que vivia ELE dentro de mim.

[Isabela Rosemback]



Escrito por mim: Isabela! às 13h27
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O ônibus estava lotando, mas ela tratou logo de sentar na janelinha – ela adora a janelinha. O coletivo começa a tremer, está a segundos de começar a viagem. De pé, a seu lado, um homem diz a alguém “eu que tô dirigindo”. O olhar, antes preso a palavras de sua revista, logo voltou-se ao indivíduo. Era negro, usava uma grande capa creme, que certamente o esquentava naquela manhã fria de inverno. Era julho, 19. Logo que ele sentou na poltrona ao lado, ela pôde sentir seu cheiro. De certa forma ele incomodava, era um cheiro opaco, como unicamente definiu. Na boca do passageiro-motorista, que aparentava ter uns 60 anos – a raça negra deixa sempre dúvidas, tamanha conservação -, apenas alguns dentes que não os da frente. Não demorou a perceber. Assim que sentou, o homem desembestou a conversar com os passageiros dos bancos traseiros aos seus. Ah, mas é muito difícil pescar peixe lá! Ixi! Mas vai muito dinheiro ali... jacaré não tem porque é muito pesado. Não tem jeito não.... Um olhar na matéria que lia na revista e outro espiando de canto. Os ouvidos? Atentavam-se aos relatos do temporário acompanhante de estrada. Mas sabe como é? Criar bode não é fácil não... e nem tanto pelo valor, mas pela buniteza. Lá na onde eu moro, eu, o Ceará, o Chicão – uma infinidade de nomes – fazemos competição da buniteza dos bodes. Aí vai chifre, tamanho, pêlo... cê sabe que lá tem até um bode com 25 cm. de chifre? Verdade? Mas isso é pouco, não é não? Tem uns que têm muito mais! E o homem concordava. Ah, sim! Mas teve um que cresceu tanto os chifres que começou o chifre a enrolar! A menina já não mais se concentrava. Escondia no canto de sua boca um sorrizinho simpático, de quem achava aquilo tudo interessante. Pensava na variedade de tipos humanos, como podia? Não são apenas músculos, são nervos. São rodas. Rodas do ônibus que mal saíra de seu destino. O silêncio ultrapassou o espaço e selou a boca do senhor. Um barulho de bip interrompe a leitura dela. O homem quieto, arranca de um dos quatro bolsos de sua capa, um  aparelho telefônico. Um celular? A menina estranha. Pra você ver o alcance da modernidade! Voltam à leitura. Ela e ele. Ela na página 26 e ele na 27. O que é que é isso aqui? Mimiimimimimimmmmmm... de? Mimmmmmimimmmmimmmm... de Ru..dê? Mimmmmia de ruê? Oi? O que é isso aí? Militância? Isso! Não li essa página ainda. Mas que é isso aí? Ah.... é sobre um escritor... movimento... literatura.... política! - tentou se fazer entender, mas não. Ah.... é que achei bonito isso.... mimimimm..... bonito né? Eu estudei muita coisa, mas sobre isso aí nunca li. Estudei muitas coisas. Estudava mais a bíblia, mas depois larguei o resto, sabe? Arrumei um  pedacinho de mato pra morar, que foi pra não ler mais nada. Sou muito velho... Nunca se é velho para ler. E o silêncio entre os dois assentos se refez. Você trabalha aqui? O moço da poltrona do lado demorou a entender que a conversa era com ele. Hein? Você trabalha aqui? Sim. E o negro homem continua: é só ter Deus no coração... reza o pai nosso todos os dias. Que ele está com a gente e a gente com ele. Você segue aquilo que Moisés deixou pra gente. Reza o pai nosso, filho... todos os dias. Com licença? A menina abandona a janelinha. Desce em seu ponto. Na estrada, o ônibus continua sua trajetória.

[Isabela Rosemback]



Escrito por mim: Isabela! às 13h39
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BRASIL, Sudeste, SAO JOSE DOS CAMPOS, Vale do Paraíba Paulista, Mulher, de 20 a 25 anos, Semi-jornalista, gosta de livros,música, bebericadas e conversas


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